O achatamento que ninguém anunciou
O debate sobre estruturas mais achatadas domina as conversas de gestão desde o ano passado. Empresas grandes cortaram níveis hierárquicos, rebatizaram gerentes como coaches e apresentaram o resultado como agilidade. É um debate legítimo e tem argumentos dos dois lados.
O que raramente entra nessa conversa é que a empresa de pequeno e médio porte chegou ao mesmo lugar por um caminho completamente diferente, e muito mais silencioso.
A Gusto acompanhou os dados de folha e de relação de reporte de 8.500 empresas americanas com 2 a 500 funcionários, entre janeiro de 2019 e setembro de 2024. Em 2019, cerca de 25% dos trabalhadores dessas empresas ocupavam alguma função de gestão de pessoas. Em 2024, esse número havia caído para cerca de 15%, uma redução de 34% na proporção de quem lidera. No mesmo período, o número de executores por gestor saiu de algo entre 3 e 3,5 para quase 6. Nas empresas da faixa de 100 a 499 funcionários, o crescimento entre 2022 e 2024 foi de 44%.
São dados americanos, e faço questão de dizer isso antes que alguém precise perguntar. Mas o porte é exatamente o da empresa que atendemos, e o mecanismo descrito ali é o que vejo toda semana em Caxias do Sul: um coordenador pediu demissão, a vaga não foi reposta, as pessoas dele foram distribuídas entre os dois que ficaram, e três anos depois a estrutura se consolidou como se sempre tivesse sido assim. Ninguém chamou aquilo de reestruturação. Chamaram de enxugar.
O número que a empresa média não acompanha
Existe um indicador clássico de desenho organizacional para isso, o span de controle, que mede quantas pessoas se reportam diretamente a cada gestor. É um número que qualquer empresa consegue calcular em quinze minutos e que quase nenhuma empresa média calcula.
A Gallup, em meta-análise que reuniu 92.252 equipes em 104 organizações de 26 setores, com funcionários em 46 países, mostrou o tamanho do deslocamento. A equipe média por gestor passou de 8,2 pessoas em 2013 para 12,1 pessoas em 2025, uma alta de 47% em pouco mais de uma década.
Há um detalhe nesse dado que vale mais que o dado em si. A mediana permaneceu estável entre 5 e 6 pessoas. Ou seja, a média não subiu porque todo mundo ganhou mais dois liderados. Ela subiu porque se formou uma cauda pesada: 22% dos gestores hoje têm entre 10 e 24 liderados diretos, e 13% têm 25 ou mais. A distribuição é que mudou, não o centro.
Traduzindo para a mesa do sócio: a sua empresa provavelmente tem dois ou três líderes em situação confortável e um que está carregando um time que ninguém deliberadamente montou daquele tamanho. E você não sabe qual é qual, porque o número nunca foi calculado.
Só que o tamanho do time não decide nada sozinho
Aqui é onde a conversa costuma descarrilhar para o lado errado. A conclusão fácil seria estabelecer um teto, dizer que ninguém pode ter mais de oito liderados e considerar o problema resolvido. A mesma pesquisa da Gallup mostra que não é assim que funciona.
Equipes grandes e altamente engajadas prosperam sob gestão eficaz, enquanto equipes pequenas mal geridas continuam mal geridas. O tamanho, sozinho, explica pouco. Duas outras variáveis explicam muito.
Quanto do tempo do líder ainda é trabalho de executor
A primeira variável é a proporção do tempo que o gestor dedica a trabalho de execução individual. Gestores que gastam menos de 40% do tempo nesse tipo de tarefa mantêm engajamento mais alto independentemente do tamanho da equipe. Acima disso, a capacidade de liderar erode rápido.
Este é o ponto cego da empresa média brasileira, e é um ponto cego com origem conhecida. Promovemos o melhor técnico, o melhor vendedor, o melhor analista. Somamos pessoas sob a responsabilidade dele. E não tiramos uma única tarefa de cima. O vendedor que virou gerente comercial continua com a própria carteira. O analista que virou coordenador continua fechando os relatórios mais difíceis. A empresa criou um cargo de liderança e entregou junto uma carga de execução integral.
O resultado é previsível. Sob pressão, o líder faz primeiro aquilo que tem prazo e cobrança formal, que é a execução. A liderança vira o que sobra do dia.
Se existe conversa de verdade toda semana
A segunda variável é mais barata e, por isso mesmo, mais constrangedora. Colaboradores que receberam feedback significativo do gestor na última semana apresentam engajamento próximo de 70%, em qualquer tamanho de equipe. Sem esse feedback semanal, o engajamento fica entre 22% e 26%.
A diferença entre 70% e 24% não está em programa de cultura, em pesquisa de clima ou em benefício novo. Está em uma conversa por semana. E é exatamente a primeira coisa que desaparece quando o líder está afogado em execução, o que fecha o círculo: a sobrecarga estrutural elimina a prática mais eficaz de liderança, e a empresa lê a queda de engajamento como problema de perfil do gestor.
Nenhuma empresa decidiu dobrar o número de pessoas por líder. Ela apenas parou de repor a camada que saía, e passou a chamar o resultado de estrutura enxuta.
O que isso vira na empresa média brasileira
Quando esse desenho encontra a realidade nacional, o retrato fica desconfortável.
A Conquer In Company ouviu 400 líderes e 350 profissionais de recursos humanos de diferentes setores e regiões do país, em pesquisa divulgada em junho deste ano. Entre os líderes, 78% assumiram a posição sem preparo suficiente e 90% conduzem processos de mudança sem clareza de direção. Oitenta e oito por cento trabalham sob pressão constante, e 44,6% classificam essa pressão como alta ou extrema. Setenta por cento já pensaram em deixar o cargo.
Do outro lado da mesa, o diagnóstico é igualmente duro e vem de quem observa: 54,1% dos profissionais de recursos humanos avaliam que os líderes atendem apenas moderadamente às exigências do papel, e 34,6% classificam essa capacidade como baixa ou muito baixa.
Junte as duas leituras e o que aparece não é um problema de pessoa. É um sistema em que se coloca alguém num cargo sem definição, sem preparo e sem alívio de carga, e depois se avalia o desempenho dessa pessoa como se as condições fossem neutras.
A DDI reforça a tendência por outro ângulo. A proporção de líderes que se dizem muito preparados para conduzir mudança caiu de 25% para 13% em cinco anos, e apenas 30% dos líderes de nível médio demonstram força real nessa competência.
Mas há um dado nessa mesma pesquisa que quero destacar, porque é a boa notícia estrutural desta edição: empresas com até 100 funcionários têm o dobro de probabilidade de se sentirem preparadas para conduzir mudança, comparadas às organizações maiores. A proximidade entre decisão e execução, que é a vantagem natural do porte, ainda funciona. A empresa média só não está usando.
O tempo do líder é uma linha de orçamento que ninguém abriu
A empresa orça salário, encargos, benefício e, nas mais organizadas, treinamento. Não orça a única coisa que a liderança realmente consome, que é capacidade de atenção.
Medir isso não exige sistema novo. Exige três perguntas feitas a cada líder, com honestidade e sem punição pela resposta. Quantas pessoas se reportam diretamente a você. Que percentual da sua semana é trabalho que um analista sênior poderia fazer. Quantas conversas individuais de qualidade você teve nos últimos sete dias.
Aplicamos esse levantamento em diagnósticos e o padrão se repete: o sócio estima que os líderes gastem 30% do tempo em execução, e o número real fica entre 55% e 70%. A distância entre a percepção da direção e a realidade do meio da estrutura é, quase sempre, o tamanho do problema.
O que precisa estar escrito antes de somar mais uma pessoa ao time de alguém
Existe um documento simples que quase nenhuma empresa média possui e que resolve boa parte disso. Chame de desenho do cargo de liderança, de carta de papel, do nome que preferir. Ele precisa responder cinco coisas:
Quantos liderados diretos esta posição comporta, considerando a complexidade do trabalho e não apenas a contagem. Qual é o teto de tempo em execução individual, com número explícito. Quais decisões pertencem a esta posição e quais precisam subir. Qual é o ritual obrigatório de acompanhamento, com periodicidade definida. E quem responde pela área na ausência do titular.
Sem isso, cada nova contratação vira uma decisão tomada por conveniência de organograma, e o custo dessa decisão só aparece dezoito meses depois.
A conta que o sócio consegue fazer
Falar de sobrecarga de liderança sem colocar valor na mesa é conversa de intenção. Então vamos colocar.
A Gallup identificou que 52% das pessoas que pedem demissão voluntariamente afirmam que o gestor ou a empresa poderiam ter feito algo para evitar a saída. E que 51% dizem que ninguém conversou com elas sobre satisfação ou perspectivas nos três meses anteriores à decisão. O custo de substituir uma pessoa, segundo a mesma fonte, fica entre meia vez e duas vezes a remuneração anual dela.
Vale uma ilustração, e deixo explícito que é estimativa construída sobre essa faixa, não medição do mercado brasileiro. Um líder com remuneração anual de R$ 156 mil custa, para ser substituído, algo entre R$ 78 mil e R$ 312 mil. Se a empresa perde duas posições de liderança no ano, a conta fica entre R$ 156 mil e R$ 624 mil. Isso antes de contar a queda de resultado da área durante a transição, que dura em média dois trimestres e não entra em planilha nenhuma.
Compare com o custo de sentar com cinco líderes, calcular o span de controle de cada um, redistribuir carga e instituir uma conversa semanal. A assimetria é grosseira, e ainda assim a segunda opção raramente entra na pauta do comitê.
O que muda na mesa do sócio
Três movimentos, nesta ordem.
Primeiro, calcule o número. Levante quantas pessoas se reportam diretamente a cada líder da sua empresa e coloque em uma tabela de uma página. Se algum nome aparecer com mais de doze liderados diretos, você encontrou o ponto de fragilidade da sua estrutura antes que ele encontre você.
Segundo, meça a carga de execução. Peça a cada líder que registre, por duas semanas, onde o tempo foi. Não para controlar, para enxergar. A conversa que nasce desse registro costuma ser a mais produtiva do ano.
Terceiro, escreva o cargo antes de contratar mais alguém para baixo dele. Se a resposta para "quantos liderados esta posição comporta" não existe no papel, a empresa vai continuar decidindo estrutura por acidente.
E uma observação de método, porque ela separa o que funciona do que não funciona: nenhum desses três movimentos é treinamento. Desenvolver liderança em cima de um cargo mal desenhado produz um líder mais consciente do próprio afogamento. A ordem correta é desenhar, aliviar e só então desenvolver.
Perguntas frequentes
O que é span de controle e existe um número ideal?
Span de controle é a quantidade de pessoas que se reporta diretamente a um mesmo gestor. Não existe número universal. A pesquisa da Gallup mostra que times engajados com mais de doze pessoas funcionam bem sob gestão eficaz, enquanto times pequenos mal geridos continuam ineficazes. O que existe é uma faixa de alerta: acima de doze liderados diretos, a qualidade da gestão passa a depender muito do talento individual do gestor, e a empresa fica exposta.
Quantas pessoas um líder da empresa média deveria ter?
Depende menos do número e mais de dois fatores. Se o líder consegue manter a execução individual abaixo de 40% do tempo dele, ele sustenta equipes maiores. Se ele consegue ter uma conversa significativa por semana com cada liderado, o engajamento se mantém em qualquer tamanho. Quando essas duas condições não existem, mesmo seis pessoas já é demais.
Como perceber que um líder está sobrecarregado antes de ele pedir demissão?
Os sinais chegam antes e são observáveis. Cancelamento recorrente de reuniões individuais, decisões que sobem para o sócio sem necessidade, atraso em entregas de gestão enquanto as entregas técnicas saem no prazo, e afastamento das conversas de desenvolvimento da equipe. Segundo a Gallup, metade de quem sai afirma que ninguém conversou sobre satisfação nos três meses anteriores, o que significa que o silêncio antecede a saída.
Achatar a estrutura reduz custo de verdade?
Reduz custo de folha no curto prazo e transfere custo para outro lugar. O trabalho de coordenação não desaparece quando o cargo desaparece, ele se redistribui entre quem ficou, geralmente sem ajuste de carga e sem ajuste de remuneração. O resultado aparece adiante como perda de engajamento, rotatividade e queda de qualidade de execução. Achatamento pode funcionar, mas apenas quando é decisão consciente com redesenho de processo, não quando é consequência de vagas não repostas.
Vale mais promover outro líder ou desenvolver quem já está na cadeira?
Na maioria dos casos que acompanhamos, nenhum dos dois é o primeiro passo. O primeiro passo é redesenhar o cargo existente, porque promover alguém para uma estrutura mal desenhada apenas multiplica o problema, e desenvolver quem está sobrecarregado entrega consciência sem entregar capacidade. Redesenhe, alivie, e então decida entre promover e desenvolver com informação melhor.
Conclusão
A empresa média brasileira raramente decide a própria estrutura. Ela reage a uma saída, a um crescimento, a uma oportunidade, e o organograma vai se formando como sedimento. Durante anos isso funciona, porque o porte perdoa a improvisação.
O que mudou é a escala da acumulação. Quando a quantidade de pessoas por líder cresce quase 50% em uma década e a proporção de quem lidera encolhe um terço, o improviso deixa de ser tolerável e passa a ser o principal fator de risco da operação.
A boa notícia é que a correção não exige investimento relevante. Exige um número que ninguém calculou, uma conversa que ninguém teve e um documento que ninguém escreveu. Empresas do porte da sua têm o dobro de chance de conduzir mudança bem quando decidem conduzi-la. O que falta não é capacidade. É a decisão de olhar para a estrutura antes de olhar para as pessoas.
Fontes consultadas
Os dados sobre a queda na proporção de gestores e o aumento de executores por gestor em empresas de 2 a 500 funcionários vêm do estudo da Gusto sobre achatamento gerencial, publicado em junho de 2025, com base em 8.500 empresas acompanhadas entre janeiro de 2019 e setembro de 2024. Os números de span de controle, incluindo a evolução de 8,2 para 12,1 pessoas por gestor, a distribuição por faixa de tamanho de equipe, o limite de 40% de tempo em execução individual e o efeito do feedback semanal sobre o engajamento vêm da pesquisa da Gallup sobre span de controle, publicada em janeiro de 2026 a partir de meta-análise com 92.252 equipes em 104 organizações. As estatísticas sobre pressão, preparo e intenção de deixar o cargo entre líderes brasileiros vêm da pesquisa da Conquer In Company com 400 líderes e 350 profissionais de recursos humanos, divulgada em junho de 2026. Os dados sobre preparo para conduzir mudança, incluindo a queda de 25% para 13% em cinco anos e a vantagem das empresas com até 100 funcionários, vêm do Global Leadership Forecast da DDI, em análise publicada em janeiro de 2026. As informações sobre saída voluntária, ausência de conversa nos três meses anteriores e faixa de custo de substituição vêm da análise da Gallup sobre o custo da rotatividade evitável.


