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Afinidade ou competência? Na escolha de um conselheiro, a afinidade ganha de 81% a 27%.

Por Guilherme Walter 23 de outubro de 2026 7 min de leitura
Afinidade ou competência? Na escolha de um conselheiro, a afinidade ganha de 81% a 27%.

O que a pesquisa da PwC mostrou

A PwC divulgou em 23 de setembro a edição de 2026 da sua pesquisa anual com conselheiros de empresas abertas dos Estados Unidos. O dado que mais circulou foi o de que 55% dos conselheiros acreditam que pelo menos um colega do próprio conselho deveria ser substituído, o mesmo patamar do ano anterior. O que mudou foi o motivo. Entre os que querem uma troca, 39% apontam falta de conhecimento técnico, contra 21% em 2025.

O dado seguinte explica por que o problema se repete. Na avaliação de candidatos a uma cadeira, 81% dos conselheiros consideram muito importante o alinhamento com a cultura e o jeito de trabalhar do conselho. Só 27% dizem o mesmo sobre conhecimento especializado, como inteligência artificial ou cibersegurança. E, entre os que reconhecem que alguém deveria sair, apenas 36% afirmam que o conselho leva as lacunas de competência para o plano de sucessão dos próprios conselheiros.

Lidos juntos, os números descrevem um ciclo. O conselho percebe que falta competência, mas escolhe o próximo membro pela afinidade, e a lacuna continua aberta na eleição seguinte.

Afinidade não é defeito. O problema é quando ela vira o único critério

Um conselho precisa de confiança para funcionar. Conselheiros que não se respeitam não discutem com franqueza, e uma mesa em conflito permanente não decide. A afinidade tem valor, e nenhuma boa prática recomenda montar um conselho de desconhecidos que não conseguem trabalhar juntos.

O risco aparece quando a afinidade deixa de ser condição e passa a ser o critério principal. Um grupo escolhido por parecer com ele mesmo tende a concordar rápido demais. A própria pesquisa da PwC mostra o efeito: 81% dos conselheiros dizem que o conselho poderia questionar melhor a estratégia apresentada pela gestão, e 82% veem espaço para melhorar o material que recebem para decidir.

A avaliação, que deveria corrigir o rumo, também falha. Para 73% dos conselheiros, o processo de avaliação do conselho poderia melhorar, e 49% dizem que ele não é franco o suficiente. Entre esses, 40% acreditam que um avaliador independente ajudaria. Quando ninguém de fora participa, a avaliação vira uma conversa entre pessoas que se escolheram e não querem se constranger.

A competência que mais falta hoje tem nome

A lacuna mais citada pelos conselheiros americanos é a inteligência artificial. Para 71% deles, o conselho precisa reforçar a competência em IA para supervisionar a empresa. E 82% classificam como regular, fraca ou inexistente a informação que recebem sobre os resultados e os riscos da tecnologia no negócio.

No Brasil, a primeira pesquisa sobre o tema, feita pelo IBGC com o FGVethics e apresentada em 22 de outubro, mostra que 39% dos conselheiros já usam IA nos conselhos em que atuam e que 70,6% percebem impacto positivo. As barreiras apontadas são a falta de diretrizes, a falta de conhecimento técnico e a baixa prioridade estratégica. Entre os riscos, o estudo destaca o pensamento de grupo: quando todos usam a mesma ferramenta, as respostas se parecem e a diversidade de visão diminui. É o mesmo efeito da escolha por afinidade, agora com um algoritmo como reforço.

Um dos participantes resumiu o equilíbrio necessário: a IA precisa ter voz, mas não voto. Para que isso aconteça, alguém na mesa precisa saber questionar o que a ferramenta entrega.

No Brasil, a renovação desacelerou

O Board Index Brasil 2025, da Spencer Stuart, divulgado em julho, identificou que os novos membros representaram 18% dos conselheiros das companhias analisadas, contra 24% no levantamento anterior. Parte da queda se explica pela entrada de menos empresas na amostra, mas o sinal é de um conselho que se renova devagar num momento em que as competências exigidas mudam rápido.

Na mesma reportagem, a conselheira Fátima Gouveia, da Tryvea e do IBGC, resumiu o critério que deveria orientar cada escolha: "Cada cadeira nova precisa justificar uma lacuna estratégica". Inteligência artificial, gestão de riscos, internacionalização, sucessão e cultura organizacional aparecem entre as lacunas mais citadas.

Na empresa média, o problema aparece de outro jeito

A empresa média raramente tem um conselho de administração estatutário. O mais comum é o conselho consultivo, criado pelo sócio para ter apoio nas decisões mais importantes. É aí que a escolha de conselheiros por afinidade costuma ser mais forte, porque o convite parte de uma pessoa só e quase sempre vai para quem ela já conhece e confia: o contador de longa data, um amigo empresário, um ex-diretor de banco, um parente com formação na área.

Nenhum desses perfis é um problema em si. O problema surge quando o conselho é montado sem perguntar o que falta à empresa, quando os mandatos não têm prazo e quando ninguém avalia se a mesa está entregando o que deveria. Nessas condições, trocar um conselheiro vira uma questão pessoal, e a decisão é adiada indefinidamente.

A consequência é concreta. Uma empresa que está entrando em novos mercados, profissionalizando a gestão ou se preparando para a sucessão precisa de repertório que o grupo original talvez não tenha. Se o conselho não muda junto com a empresa, ele passa a validar decisões em vez de melhorá-las. Na Perspectiva 5, tratamos do conselho consultivo como o rito que organiza a decisão. Aqui, a questão é quem senta à mesa e como saber se a composição continua certa.

Afinidade decide quem senta à mesa. Competência decide o que a mesa consegue enxergar.

Como escolher e renovar conselheiros com critério

Comece pela matriz de competências

Antes de convidar alguém, liste as competências que a estratégia dos próximos três anos exige: finanças, mercado, operação, pessoas, tecnologia, M&A, governança familiar. Marque quais já estão cobertas pelos sócios e pelos conselheiros atuais e quais não estão. A próxima cadeira vai para a lacuna mais crítica. A afinidade entra como filtro final, entre candidatos que já têm a competência necessária, e não como ponto de partida.

Defina mandato com prazo

Mandatos de um ou dois anos, com recondução decidida de forma explícita, transformam a renovação em rotina. Sem prazo, qualquer troca parece demissão. Com prazo, o fim do mandato é o momento natural de rever a composição, sem constranger ninguém.

Avalie o conselho todo ano, com olhar externo

A avaliação deve cobrir o conselho como grupo e cada conselheiro individualmente: preparo para as reuniões, qualidade das contribuições, independência de opinião, aderência às competências que justificaram o convite. Na empresa média, uma avaliação conduzida por alguém de fora do grupo tende a ser mais franca do que a autoavaliação, pelo mesmo motivo que os conselheiros americanos apontam na pesquisa.

O que muda na mesa do sócio

A primeira decisão é desenhar a matriz de competências do conselho a partir da estratégia, e não a partir das pessoas que já estão lá. Se a empresa não sabe quais competências precisa na mesa, qualquer escolha parece razoável.

A segunda é formalizar o mandato. Prazo, critério de recondução e regra de saída escritos no regimento do conselho consultivo, para que a renovação seja um processo e não um conflito.

A terceira é instituir a avaliação anual. Uma rodada simples por ano, com questionário individual, conversa reservada e, se possível, um condutor independente, já mostra se a mesa está contribuindo ou apenas acompanhando.

A quarta é decidir quem cuida da agenda de inteligência artificial. Pode ser um conselheiro com essa experiência, um especialista convidado para reuniões específicas ou uma pauta fixa com indicadores definidos. O que não funciona é deixar o tema sem dono enquanto a gestão já usa a tecnologia no dia a dia.

Perguntas frequentes sobre a escolha e a avaliação de conselheiros

Quais critérios usar para escolher um conselheiro?

O ponto de partida é a matriz de competências que a estratégia da empresa exige nos próximos anos. O conselheiro deve cobrir uma lacuna relevante, ter independência para questionar a gestão e os sócios e disponibilidade para se preparar. A afinidade com o grupo é importante para o funcionamento da mesa, mas deve ser usada como filtro entre candidatos competentes, e não como critério principal.

Com que frequência o conselho deve ser avaliado?

A recomendação mais comum é uma avaliação por ano, cobrindo o conselho como grupo e cada membro individualmente. Segundo a pesquisa da PwC de 2026, 73% dos conselheiros acreditam que o processo de avaliação poderia melhorar e 49% dizem que ele não é franco o suficiente, o que reforça o valor de um condutor independente.

Qual deve ser a duração do mandato de um conselheiro?

Em conselhos consultivos de empresas médias, mandatos de um a dois anos, com recondução decidida de forma explícita, costumam funcionar bem. O prazo curto não significa troca frequente. Significa que a permanência de cada conselheiro é revista periodicamente, com base na avaliação e nas competências que a empresa precisa.

Como substituir um conselheiro sem gerar conflito?

Com regras definidas antes da necessidade: mandato com prazo, critérios de recondução e avaliação anual registrados no regimento. Quando a saída acontece ao fim de um mandato e com base em uma avaliação conhecida por todos, ela é tratada como parte do processo, e não como um julgamento pessoal.

O conselho precisa ter alguém especialista em inteligência artificial?

Não necessariamente um especialista técnico, mas alguém capaz de avaliar como a tecnologia muda a estratégia, os riscos e a vantagem competitiva da empresa. A pesquisa do IBGC com o FGVethics aponta a falta de diretrizes e de conhecimento técnico como as principais barreiras ao uso de IA nos conselhos brasileiros. Se ninguém na mesa domina o tema, um especialista convidado para pautas específicas é uma alternativa.

Conclusão

A pesquisa da PwC trata de conselhos de grandes empresas americanas, mas o mecanismo que ela revela é universal: quando a afinidade decide quem entra, a competência que falta continua faltando, e a insatisfação com a composição do conselho se repete ano após ano. Na empresa média, em que o conselho consultivo costuma nascer de convites pessoais, esse mecanismo é ainda mais forte.

A solução não exige trocar ninguém amanhã. Exige uma matriz de competências, mandatos com prazo e uma avaliação anual franca. Com essas três regras, a composição do conselho passa a acompanhar a estratégia da empresa, e a decisão sobre quem senta à mesa deixa de ser uma questão de amizade.

Fontes consultadas

Os dados sobre a composição, a renovação e a avaliação dos conselhos americanos vêm da PwC 2026 Annual Corporate Directors Survey, divulgada em 23 de setembro de 2026, realizada com conselheiros de empresas abertas dos Estados Unidos. Os dados sobre o uso de inteligência artificial nos conselhos brasileiros vêm da pesquisa Inteligência Artificial, Governança e Ética nos Conselhos de Administração das Empresas Brasileiras, do IBGC com o FGVethics, apresentada em 22 de outubro de 2026. Os dados de renovação dos conselhos brasileiros vêm do Board Index Brasil 2025, da Spencer Stuart, conforme reportagem do Times Brasil de julho de 2026, que também traz a declaração de Fátima Gouveia. As recomendações sobre matriz de competências, mandatos e avaliação seguem as boas práticas de governança corporativa adaptadas pela Atto à realidade da empresa média.

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