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O orçamento anual venceu antes de junho: a virada para o forecast contínuo.

Por Juliano Walter 6 de julho de 2026 7 min de leitura
O orçamento anual venceu antes de junho: a virada para o forecast contínuo.

Toda empresa média fecha o ano com o mesmo ritual. Entre outubro e dezembro, a diretoria mergulha em planilhas, negocia números com cada área e aprova um orçamento que passa a valer de janeiro a dezembro. Em julho, quando alguém abre aquele arquivo, a sensação costuma ser a mesma. O plano envelheceu mais rápido do que o previsto. As premissas de câmbio, juros e demanda que sustentavam a conta já não existem, e o documento que deveria orientar decisões virou peça de arquivo.

Não é um problema de capricho da equipe financeira. É um problema de formato. Um ciclo único, longo e anual foi desenhado para um mundo mais estável do que o de 2026. Quando o cenário muda a cada trimestre, o plano fixo não protege a empresa. Ele apenas cria a ilusão de controle enquanto a realidade segue em outra direção.

O ano em que o plano fixo quebrou mais cedo

O primeiro semestre de 2026 é um bom retrato de por que o orçamento anual perdeu tração. Em 17 de junho, o Copom reduziu a Selic para 14,25% ao ano, e o boletim Focus passou a projetar a taxa em 13,5% até o fim do ano, depois de meses em que a expectativa subia. O IPCA acumulava 4,39% em doze meses, ainda pressionado, e a projeção de crescimento do PIB girava perto de 1,9%. Nenhum desses números era conhecido quando a maioria das empresas fechou seu orçamento, em dezembro.

O quadro externo reforça o ponto. Uma pesquisa global da McKinsey conduzida entre o fim de maio e o início de junho apontou que 63% dos respondentes achavam que as condições econômicas globais haviam piorado nos últimos seis meses, a maior fatia desde meados de 2022. No mesmo período, o índice de confiança dos executivos medido pelo Conference Board recuou de 59 para 47, voltando ao terreno negativo. Uma empresa que aprovou metas em dezembro e não as revisou desde então está, na prática, operando em julho com um mapa de outro território.

O paradoxo da tecnologia

O mais curioso é que a lentidão do planejamento não vem da falta de ferramentas. Vem do apego ao formato. O AFP FP&A Benchmarking Survey de 2026, que ouviu 332 profissionais de finanças corporativas, mostra um retrato incômodo. Apenas 43% das organizações usam forecast contínuo, o chamado rolling forecast, apesar de a prática ser reconhecida como referência de agilidade. A maioria segue presa à projeção do ano corrente, que perde utilidade à medida que o exercício avança.

O mesmo levantamento revela que o tempo médio para produzir um orçamento é de 8,7 semanas, praticamente o mesmo de três anos atrás, mesmo com a onda de softwares de planejamento que as empresas adotaram no período. É o que a pesquisa chama de paradoxo da tecnologia. Investiu-se em sistema, mas não se mudou o processo. A empresa comprou um carro novo e continuou dirigindo na primeira marcha.

Para a empresa média, o custo desse apego é concreto. Estudos de referência do IBM Institute for Business Value, citados há anos na prática de finanças, indicam que o forecast contínuo entrega cerca de 12% mais precisão que o orçamento tradicional, reduz o tempo de preparação pela metade e melhora a rentabilidade em torno de 10% por meio de melhor alocação de recursos. São ganhos que vêm menos de tecnologia e mais de cadência.

O que muda quando o plano passa a se mover

Forecast contínuo não é orçar doze vezes por ano nem refazer tudo a cada mês. É manter sempre um horizonte à frente, em geral de doze a dezoito meses, atualizado a cada fechamento com o que de fato aconteceu. Em vez de comparar a realidade com um número congelado em dezembro, a direção compara a realidade com a melhor estimativa disponível hoje, e ajusta as decisões enquanto ainda há tempo de agir sobre elas.

A diferença de postura é grande. No modelo anual, a conversa de diretoria gira em torno de justificar o desvio em relação ao plano. No modelo contínuo, a conversa gira em torno de decidir o próximo passo diante do cenário que se desenha. O primeiro olha para trás e cobra explicação. O segundo olha para frente e cobra decisão. Para uma empresa que compete por agilidade, e não por tamanho de caixa, essa inversão vale muito.

Há um cuidado prático que evita transformar o forecast contínuo em um novo peso operacional. Não é preciso projetar cada linha de despesa com a mesma minúcia do orçamento. A boa prática mostra que de três a sete direcionadores explicam mais de 80% da variação dos resultados na maioria das empresas. Concentrar a atenção nesses poucos vetores que realmente movem o número, e deixar o resto em modo de acompanhamento, é o que torna o processo leve o suficiente para caber na rotina de uma estrutura enxuta.

Onde entra a inteligência artificial, e onde ela ainda não entrega

A migração para um planejamento mais vivo coincide com a chegada da inteligência artificial à área financeira, e vale separar promessa de resultado. Dados da McKinsey mostram que 44% dos diretores financeiros já usam IA generativa em cinco ou mais aplicações, contra apenas 7% um ano antes. O Finance Trends 2026 da Deloitte aponta que 54% dos executivos colocam a integração de agentes de IA como prioridade máxima em finanças para o ano.

O contraponto está no mesmo estudo. Entre as empresas que dizem já ter implementado soluções de IA, apenas 21% enxergam valor tangível até aqui, e a maior barreira apontada não é o modelo, é a base. Falta infraestrutura e dados organizados. A leitura estratégica é direta. A IA acelera um processo que já existe e está bem desenhado, mas não conserta um planejamento que continua sendo feito uma vez por ano sobre dados dispersos. Primeiro se muda a cadência e se arruma a casa dos números. Só então a tecnologia tem sobre o que trabalhar.

O que a Atto observa em campo

Nas empresas médias que acompanha, a Atto raramente encontra ausência de orçamento. Encontra orçamento parado. O plano existe, foi trabalhoso de montar e, poucos meses depois, ninguém mais o consulta para decidir. A reunião de resultado vira uma sessão de explicação de desvio, em que cada gestor defende por que não bateu um número definido em outro contexto, e a energia da direção se gasta olhando para o retrovisor.

A virada que costuma destravar não exige uma revolução de sistema. Exige uma revolução de ritmo. Substituir a pergunta "por que não batemos o orçamento" pela pergunta "o que os últimos noventa dias nos dizem sobre os próximos trezentos e sessenta". Escolher os poucos direcionadores que de fato movem o resultado e revisá-los a cada fechamento. Aceitar que uma projeção atualizada e provisória é mais útil para decidir do que uma meta exata e vencida. Em um ano em que o cenário mudou antes de junho, quem planeja de forma contínua não elimina a incerteza, mas para de ser surpreendido por ela. E, na empresa média, deixar de ser surpreendido já é uma vantagem competitiva.

Fontes consultadas

Este texto se apoia em dados e análises publicados em 2026. As informações sobre juros, inflação e atividade vêm do Banco Central do Brasil e do boletim Focus, com a decisão do Copom de 17 de junho e as projeções do IPCA e do PIB divulgadas pelo IBGE. A leitura de deterioração do cenário e a queda de confiança dos executivos baseiam-se na pesquisa de condições econômicas da McKinsey de junho e no índice do Conference Board. Os dados de adoção de forecast contínuo, tempo de ciclo orçamentário e o paradoxo da tecnologia vêm do AFP FP&A Benchmarking Survey de 2026. Os ganhos de precisão e rentabilidade do rolling forecast referem-se a estudo do IBM Institute for Business Value. Os números de uso e de retorno da inteligência artificial em finanças vêm da McKinsey e do relatório Finance Trends 2026 da Deloitte.

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