Três conversas, três espaços
Em toda empresa familiar, há três conversas sobrepostas que precisam, em algum momento, ser desempilhadas:
- Família, relações de afeto, herança, pertencimento, posição de gerações.
- Sociedade, capital, dividendos, direitos de sócio, entrada e saída de participações.
- Gestão, operação, resultado, desempenho, cargos técnicos e decisões do dia a dia.
Quando essas três vivem na mesma mesa (normalmente a mesa de domingo do almoço), qualquer decisão mexe nas outras duas. Quem critica um resultado trimestral parece estar criticando um primo. Quem pede dividendo parece estar desrespeitando o pai. Quem defende um cargo parece estar pleiteando herança.
O que o protocolo familiar faz é separar as três conversas em três espaços formais com regras próprias.
O que cada espaço é
Conselho de família
Fórum onde se discute o que é de família: pertencimento, valores, critério para entrar (e sair), herança, casamento, divórcio, educação de herdeiros para o negócio. Não tem voto sobre operação. Não tem poder sobre dividendo.
Assembleia de sócios (ou conselho societário)
Fórum onde se discute o que é de sociedade: política de dividendo, admissão de novos sócios, acordo de voto, saída de participações, reorganização societária. Não discute quem é bom ou ruim na operação.
Comitê executivo / conselho de administração
Fórum onde se discute o que é de gestão: estratégia, orçamento, desempenho, contratações seniores, deliberações técnicas. Posição aqui depende de mérito, não de sobrenome.
Por que separar antes da sucessão
A sucessão é o evento que mais frequentemente exige as três conversas ao mesmo tempo. Sem os três espaços funcionando, a família discute sucessão na cozinha. Transforma cada decisão em trauma múltiplo. Com os três espaços funcionando, a decisão sobre "quem sucede" é técnica (comitê executivo), "quem herda" é familiar (conselho de família) e "quem detém" é societária (assembleia). Três debates paralelos, três mesas diferentes, três decisões que se cruzam mas não se confundem.
O que fazer: e quando
Não existe hora certa para começar. Existe uma janela errada: começar depois da primeira briga. Quando o conflito já existe, o protocolo vira instrumento de defesa, e a família entra na mesa armada. Quando o protocolo é desenhado em tempo de paz, ele vira infraestrutura.
A Atto conduz esse desenho como parte da frente de Governança & M&A. É sensível: exige anos de relação para funcionar direito, e é sempre conduzido sob sigilo absoluto. O produto é documento, mas o que fica é uma família que consegue conversar sobre dinheiro sem perder o afeto. Isso, na empresa média brasileira, é raro.
E é o que sustenta empresa familiar que atravessa geração.


